Entrevista: André Dea (Sugar Kane e Vespas Mandarinas)

Acho que já ficou visível para todos os leitores daqui do blog o quão fã de Vespas Mandarinas eu sou, então venho aqui postar a entrevista que fiz ontem (9) com o André Dea, baterista do Vespas e Sugar Kane no final de uma sessão de autógrafos na Vodka Store. Conversamos sobre como ele administra a sua agenda sendo de duas bandas bem ativas, sobre seus gostos musicais e muito mais!

Áudio disponível no final do post.

Como surgiu o apelido Pindé?

R: Eu tinha 14/15 anos, tinha começado a tocar bateria a pouco tempo e aí eu ia ensaiar sempre com uma camiseta muito velha, assim, algumas que eu tinha velhas e a primeira banda que tive os meninos começaram a tirar sarro: “pô meu, qual que é você vem com essas velhas, tá pobre, tá na pindaíba. E aí de pindaíba virou Pindé e ai pegou e já era né?! Desde então, Pindé. Tem variações de Pindé mas Pindé ficou.

Quando começou a se interessar por música? 

R: Desde criança. Meu pai toca violão, meus avós tocavam acordeom e violão também, então sempre tive contato desde pequeno. Teve uma época que eu ganhei de presente de um amigo do meu pai que tem um coral um atabaque e um cavaquinho e aí eu comecei a curtir mais batucar direto no negocio, gostava do cavaquinho também mas não sabia tocar direito, mas eu gostava dos instrumentos e aí depois de um tempo parei, larguei, ficou meio que em stand by, não procurei, não estudei, não fiz nada. Quando fiz 13 anos eu comecei a tocar numa fanfarra, caixa de repique e aí a partir desse momento eu meio que falei “nossa esse negocio é pra mim”, percussão, bateria e comecei a pensar “pô quero tocar bateria”  e aí fui atrás de um professor, fui num show um dia num teatro e tinha um cara tocando uma musica instrumental e esse cara dava aula, chama Joel Junior, depois do show fui falar com ele, ele me disse que era professor, me deu o cartão da escola dele e aí comecei a tocar bateria, não sabia nada e já comecei estudando e não teve jeito né, mordeu o bichinho e fiquei.



Quando você viu que daria para levar a música como ganha pão?

R: Nunca foi uma coisa que eu busquei, mas foi acontecendo naturalmente. Eu estava tocando com as primeiras bandas dos meus amigos e aí alguns amigos de amigos começaram a me ver tocar me chamavam pra tocar entre as bandas e comecei a tocar com cada banda e cada vez mais gente. Aí teve um época que eu estava tocando no 92 Graus, em Curitiba, uma casa bem tradicional de lá meio parecido com o Hangar 110 em São Paulo, bem underground e aí o Capilé do Sugar Kane estava lá, me viu tocar, falou comigo e a gente conversou, ele disse que ia chamar essa banda que eu estava tocando para abrir alguns shows do Sugar Kane. Era época do Continuidade Da Máquina, o disco de 2003 e eu falei “pô, super legal, bacana”. Ele nunca chamou a gente pra abrir nada, mas passaram-se alguns anos e o baterista do Sugar Kane ia sair e a gente já tinha tocado juntos em alguns shows do Sugar Kane e a minha outra banda, ela já tinha me visto tocar também, além dessa vez em algumas outras, me mandou mensagem no finado Orkut falando: “Bixo, o batera do Sugar, o Rene tá saindo e você seria um cara que seria legal entrar, você não é afim de fazer?” e eu falei “pô, claro que sou, tamo ai” e foi a primeira banda que comecei a ganhar mesmo algum trocado, porque nas outras bandas que tocava era muito pouco, não tinha como pensar em viver disso, com o Sugar Kane já começou a mudar de figura entrava um pouquinho mais de dinheiro e ai eu larguei tudo que eu estava fazendo pra tocar com o Sugar, me mudei pra São Paulo em 2007, mas não foi uma coisa que busquei, foi meio que acontecendo e ainda bem que aconteceu.

E como que foi sua mudança para São Paulo?

R: Mudar pra São Paulo no começo foi difícil porque minha vida toda tinha sido em Curitiba, sempre cresci lá, vinha pra cá para tocar, mas nunca tinha me imaginado morando em São Paulo, não gostava da cidade, achava muita grande, muito estranha, muito carro, muito tudo mas eu achei que seria o lugar certo caso eu quisesse ter essa carreira de musico e como viria os meus amigos, os caras do Sugar Kane, eu falei: “vamo ai, vamo entrar nessa” e decidi vir pra cá, eu estudava lá em Curitiba, fazia faculdade, já tinha terminado só faltava o TCC, então não tive que largar nada de estudo, já tinha terminado tudo que tinha que terminar. A parte mais complicada foi deixar minha namorada lá, ela mora em Curitiba até hoje, a gente se via sempre, todo dia praticamente, a gente estudava junto e aí foi baque, foi a coisa que eu mais senti, saudade e tal. Foi difícil no começo, depois a gente acostumou e tal mas no início foi brabo e estando aqui eu acho que São Paulo me acolheu, uma cidade maravilhosa. Foi tudo acontecendo, depois de um tempo comecei a tocar com Vespas também, já morando aqui 3 anos e pouco e é isso hoje em dia pro que eu faço não me vejo fora daqui, talvez tenha como me mudar daqui de volta pra Curitiba no futuro ou continuar morando aqui, mas acho que hoje em dia não tem como sair daqui, gosto de estar aqui acho que foi uma boa escolha.



Você toca em duas bandas que estão aí na ativa, como que é conciliar a agenda das duas?

R: Não é tão difícil quanto parece, as bandas tocam bastante mas não é uma coisa que suga completamente a minha agenda, nenhuma delas, então a gente tenta conciliar as datas. A banda x fecha uma data, a outra tenta não marcar no mesmo dia, se marcar, eu vejo se da para tocar no mesmo dia eu vejo se tem como eu fazer os dois. Já aconteceu do Sugar Kane fazer um show com outro batera por conta de um show do Vespas, então a gente sempre tenta bolar uma conversa, por sorte os integrantes das duas bandas são bem amigos então isso é tranquilo e acaba sendo pra mim interessante porque são duas bandas diferentes e é gostoso ter essa possibilidade de tocar, por mais que as duas sejam rock, Sugar Kane é  mais pesado, exige mais fisicamente e Vespas é uma outra proposta, então pra mim é legal ter contato com esses dois estilos parecidos e diferentes ao mesmo tempo, é uma coisa que me deixa bem e consigo levar.

Você meio que já contou como que entrou pro Sugar Kane, então como que foi entrar pro Vespas?

R: O Sugar Kane estava gravando um EP com o Chuck no Costella, estúdio do Chuck. Na época, o Mauro e o Mike não estavam na mesma pegada que o Chuck e o Thadeu estavam, eles queriam levar alguma coisa mais a serio e os outros dois estavam numa vibe mais de boa, não estavam puxando tanto. E ai quando o Chuck viu a gente tocar ele falou “pô, legal esses caras ai estão bem, pode ser uma boa”. Eu me lembro que eu estava passando um tempo em Curitiba e o Chuck me ligou e falou: “cara o nosso batera saiu e a gente vai ter um show e a gente precisa de um batera, você é afim de fazer esse show?” eu já conhecia a banda e falei “vamo nessa, amarradão, vamo aí” ai marcamos um ensaio e no primeiro ensaio ele foi me dar uma carona e já indo pro estúdio ele disse: “bixo, não quero falar nada mas você não quero que você toque ai e tal, o batera vai sair, o quê que você acha?”. Me pegou de surpresa e eu achei super legal, falei “vamo ai, certeza, pô tô dentro” e ai fiz esse ensaio com eles, já casou, já foi massa, super legal e é isso, tamo ai, uma bela historia de amor.


As duas bandas recentemente lançaram coisas novas, no caso do Sugar Kane foi um disco. Como que foi o processo de criação e a sua participação nele?

R: Muitas das musicas desse disco, o Ignorância Pluralística surgiram de riffs de guitarras do Rick, que é o guitarrista que tá hoje também com o Dead Fish, ele sempre criou um monte de riff percussivo que tinha muito dialogo com as partes de bateria, então ele ia pra minha casa uma tarde e falava “meu tenho uns riff aqui e tal”, aí a gente sentava, tocava junto, começava a formar as músicas. A gente fazia muita coisa assim, vinha de alguns riffs as ideias, depois o Capilé chegava, colocava a melodia de voz, letra e outras musicas também vinham do Capilé que já era uma coisa mais base e ele vinha também e fazia comigo em casa e foi assim. O Sugar Kane tem uma coisa legal que ele é bem livre, a gente não se preocupa assim “pô, essa musica tem que ser assim, vamos fazer ela assim de um jeito tal”, as coisas foram muito naturais, foram surgindo e a gente foi deixando, ninguém ficou refazendo muita coisa, a maioria das coisas que estão no disco elas apareceram, a gente lapidou e ficou, sabe, não foi um processo demorado, foi super tranquilo e é um disco muito interessante por causo disso, pesado também acho que é o mais pesado do Sugar Kane de todos os sete e foi um processo muito bacana e muito legal de fazer.

Escute o Ignorância Pluralística aqui.

No caso de Vespas, vocês lançaram o clipe de Santa Sampa. Como que foram as filmagens?

R: O clipe de santa Sampa foi muito legal de ter feito porque primeiro foi de madruga e a gente ficou a madruga inteira acordado pra fazer no bar lá na Paulista, no Riviera. A ideia do clipe veio do diretor Kapel, que já tinha trabalhado com o Thadeu no Banzé!, no primeiro clipe de Cobra de Vidro. Ele trouxe algumas referencias muito legais para a gente e na hora de fazer, acompanhar o trabalho dele no set, todo o lance de maquiagem, o lance que ele usou de cenografia mesmo porque o clipe ficou com uma fotografia muito bonita e tudo isso veio dele. A ideia da gente usar coisas minimalistas, o Flavinho usar aquele baixão acústico, eu só com uma peça de bateria. Eu acho que ficou muito legal as atrizes que fizeram também, super bacanas, a Nicole Puzzi, a principal delas já trabalhou muito nos anos 80 com novela então foi uma honra estar com ela. Foi o clipe que  a gente teve o melhor resultado na estreia, isso já da para saber, saiu ontem e foi o que mais teve visualizações no primeiro dia então eu acho que a galera esta gostando, está abraçando de uma maneira legal e pra gente é só alegria, muito bom saber que o pessoal está com a gente nessa e isso é muito legal.



Qual foi o maior objetivo que conseguiu alcançar?

R: Acho que conseguir tocar em duas bandas que eu gosto é uma coisa que me deixa muito feliz, sou feliz por isso. Outra muito bacana foi ter a possibilidade de sair duas vezes numa revista de bateira que se chama Modern Drummer, a  maior revista de bateira do mundo e  tem a versão aqui do Brasil e esse mês de Agosto tô saindo pela segunda vez, vai ter um destaquezinho, não sou a reportagem principal mas tem meu nome na capa. Isso me deixa muito feliz porque é reconhecimento bacana pelo trabalho e também já aproveitando, muito legal, foi a indicação do Vespas ao Grammy Latino, que foi sensacional, falando da revista, o Grammy é como se fosse um carimbo de uma coisa legal que você fez. Não só para mim mas para todos os integrantes do Vespas Mandarinas, que produziu o disco e quem trabalhou junto, acho que foi uma conquista muito grande e é uma coisa muito legal. São coisas que eu nem imaginava quando comecei a tocar, nem fazia a mínima ideia que poderia acontecer e espero que ainda aconteçam outras, poderia talvez a gente ganhar.

E como que foi a escolha, vocês se candidataram ou...?

R: A gravadora manda sempre os trabalhos novos pra academia latina de gravação e assim, eles fazem a seleção e eles recebem milhares de coisas e ai eles escolhem os 5 melhores por categoria, que eles julgam ser melhores. E a gente teve essa surpresa. A gente sabia que a Deck ia mandar nosso material mas nem imaginava que podia entrar, “legal manda ai”, e deu, legal, os caras indicaram a gente, nem acreditamos, foi demais. Viajar pra lá também foi demais, nunca tive nos Estados Unidos. Eu fui sozinho, um louco falando inglês igual ao Joel Santana, mas me virei tranquilo, foi uma experiência diversíssima, estar em Las Vegas nessa festa com tapete vermelho, jantarzinho com 10 garfos e 10 facas de cada lado.


Ficou perdido não?

R: Ah, eu tinha visto na internet como é que fazia, nos livros da Gloria Kalil. Aí não me bati tanto no dia, foi tudo certo.

Como você lida com as críticas?

R: A galera que tenta botar pra baixo a gente nem da bola, isso ai entra por um ouvido e sai pelo outro, Não dá para dar bola para isso, tem que fazer o que você acredita e se você acredita em você vai que vai. Criticas com relação ao trabalho, a galera as vezes não gosta do disco, das músicas... Eu me divirto vendo alguns comentários de pessoas nas redes sociais na internet, acho engraçado quando sai alguma coisa os caras falando algumas coisas, acho engraçado, dou risada. Outros que criticam alguma coisa que as vezes eu acho relevante e tentar melhorar, mas só quando é uma coisa que eu acho que vai fazer bem se eu tentar mudar isso e tentar melhorar, então tem dois lados. Tem gente que fala por falar e esses você tem que deixar passar reto, agora quando a pessoa é mais próxima ou as vezes nem é tão próxima assim mas se fala alguma que é relevante que seja construtivo eu acho que você tem que absorver aquilo e tentar transformar em coisa boa e é o que eu tento fazer, nem sempre consigo mas quando são criticas construtivas, elas são sempre bem vindas, todo mundo tem o direito de falar e eu tento sempre ouvir. 

O que te inspira? 

R: A vida né, não tem como! Bateristicamente tem alguns caras que são minhas referencias: Stewart Copeland do The Police, Travis Barker do Blink 182, John Bonham do Led Zeppelin, Dave Grohl do Foo Fighters e Nirvana, meu, muita gente que eu ouço e tento me inspirar em alguma coisa, mas inspiração pra tocar, fazer o que eu faço eu acho que como eu falei no começo, eu gosto muito disso, me realizo com o que eu tô fazendo, então é a vida mesmo, eu adoro fazer então quando eu vejo um monte de tambor na minha frente eu começo a dar risada sozinho. Felizmente eu posso fazer isso todo dia então pra mim é excelente.

Se fosse pra ouvir um disco até o final da sua vida, qual seria?

R: Essa é difícil né?! Caramba.  Que dureza mano. Vou dizer dois então: o “Revolver” dos Beatles e o “Outlandos d'Amour” do The Police, que é o primeiro do The Police. Assim, de sopetão são esses, mas talvez se eu pudesse escolher e pensar mais surgissem mais.



O  que você tem ouvido recentemente?

R: Tenho ouvido bastante Amy Winehouse, bastante mesmo, tenho ouvido direto o “Back To Black” com a versão deluxe, que tem varias musicas meio reggae que é incrível a banda e ela, então tenho ouvido muito. Algumas coisas que não paro de ouvir nunca que são: AC/DC, uma das bandas que sou muito fã, Bad Religion ouço bastante também, tenho ouvido também, que mais... Deixa eu pensar no meu iPod. Arctic Monkeys também peguei a pouco tempo o ultimo álbum deles que ainda não tinha e também já dei uma dissecada legal, é muito bom. Voltei a ouvir nessa ultima semana Charlie Brown Jr, foi uma das banda que eu ouvi muito quando comecei a tocar batera no começo mas infelizmente eles acabaram com as coisas que aconteceram mas fazia muito tempo que não ouvia e eu peguei pra ouvir esses últimos dias o disco dois deles e pô, é demais é mô sonzera. Das bandas novas nacionais, vamos ver, Vivendo do Ócio sempre ouço, sempre tão comigo, Rancore que acabou agora também fez  a tour de despedida, ouvi um pouco esse dias mais por ai. 

Um show que você fez/participou que foi marcante.

R: Dois também que eu vou citar, um de cada banda. Vespas Mandarinas acho que o Lollapalooza foi bem marcante pela estrutura, por ser em um festival, pela importância do show, é um aparada que eu nunca vou esquecer e acho que os minos também não vão. É uma adrenalina que você não experiência normalmente porque você faz o seu show normal é diferente de você estar num ambiente desse de um festival, o dia tava lindo, o sol tudo conspirando, foi super marcante, o pessoal cantando as musicas, incrível, arrepiante. E do Sugar Kane um show que faz tempo que a gente fez, em 2008 em Sobral no Ceará, uma cidade perto de Fortaleza mais pro interior do Ceará, e a gente não esperava nada do show e foi um show incrível, lotado. O lugar que a gente tocou era o anfiteatro na beira de um rio, a coisa mais linda o lugar, fim de tarde, quase noite e lotadasso, galera maluca, foi um show que não vou esquecer. Acho que esses dois aí, demais!


Agora um show que você foi.

R: Um show que eu fui? Show do AC/DC em 2009, show do Charlie Brown, o primeiro show que eu fui guri foi o do Charlie Brown na época do Nadando Com Os Tubarões que era o auge do Charlie Brown, todos os cinco integrantes originais ainda, foi muito marcante para mim. O show do The Police também por ter um dos maiores batera que eu mais admiro, Stewart Copeland tocando ao vivo, foi bem marcante também, acho que esses três. Top 3.

Para finalizar, um recado para quem te acompanha.

R: Pô, obrigado por me acompanhar. Espero que vocês estejam curtindo as novidades aí que tão saindo, do Sugar Kane e Vespas também, espero ver todo mundo na estrada sempre que é aonde a gente pode se encontrar pra conversar, trocar ideia, experiência e acho que isso que vale pra todo mundo crescer e pô, um abração, valeu, é isso, espero que vocês tenham curtido a entrevista ai, obrigado pelo espaço também. 



Essa foi a entrevista pessoal, espero que tenham gostado! Como fã, fiquei muito feliz em faze-la. Em breve outras parecidas com esse irão ao ar, fiquem espertos.

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