Resenha: Medulla lança ode ao existencialismo humano em "Deus e o Átomo"

"Deus e o Átomo" (2016)
"Deus e o Átomo" é forte e impactante. Ao ouvi-lo atentamente vários socos de realidade são recebidos sem dó, isso após algumas das verdades ditas romperam nossas bolhas sociais. Mas essa é apenas uma das coisas que se ressalta do álbum que é o primeiro trabalho cheio inédito da banda desde o lançamento do "O Fim da Trégua" lá em 2006.

É esperado que em dez anos muita coisa mude, sejam as referências artísticas como a visão e execução sonora do grupo que inclusive acabou de passar por uma mudança na formação. O que antes era um super grupo formado por seis músicos se sintetizou em um quarteto. Os gêmeos pernambucanos Keops e Raony são os membros remanescentes que estão na ativa desde 2005 assumindo os vocais. Recentemente Alex Vinicius (Life to Live e Duermente) assumiu a guitarra e sintetizadores assim como Tuti Camargo (Maguerbes) assumiu o baixo. Ambos tocam em bandas amigas e com um público semelhante ao arrastado pela Medulla, portanto essa combinação possui tudo para fluir muito bem, como foi visto ao longo do disco.

Separado em duas partes, "Deus e o Átomo" recebeu a produção de Pedro Ramos (Supercombo). O nome do álbum saiu durante uma viagem da banda para Brasília, contou Raony em um bate-papo com o Sincronias. Em uma conversa sobre o provável nome sabia-se que o desejo unanime era para que ele fosse composto, como o de um livro ou um cordel. Entre diversas sugestões "Só Deus" surgiu e logo após o nome final reinou justamente por combinar muito bem com o conteúdo do que estava prestes a ser lançado.


Parte de uma corrente filosófica, o existencialismo abrange e tenta responder questões sobre a nossa existência. Tais questões encontramos em "Deus e o Átomo". Não só as questões mas também as pautas que as desenvolvem. Iniciando pelo interlúdio "70X7" que tem referencia bíblica no nome, Síntese abre o disco apertando diversas questões como a da origem, criação e finaliza "pra onde você quer levar a vida?".

"Deus" já chega arrematando todos os preceitos que poderíamos ter criado ao olhar o nome do álbum. Nela vemos que não se trata de uma religião que a banda acredita ser a certa, mas sim algo que a própria canção explica, vejamos: "um amor que te come por dentro / e por fora em pouco tempo". Essa faixa é repleta de instrumentos percutidos enquanto a letra é envolta de espiritualidade e fé. "É preciso fé para passar a vida", disse Raony.

Indo para mais uma das participações, Marcelo D2 aparece na terceira faixa intitulada "Faça Você Mesmo", que inicia com um sample quase que intergaláctico e com uma voz distorcida ajudando na atmosfera trap criada. A mensagem da canção tem sido muito discutida atualmente com o bum do D.I.Y (do it yourself), nela é encontrado um incentivo no refrão "sempre há e haverá / razão pra lutar / pra superar o medo / vá e faça você mesmo".

As subsequentes "Travesseiro Azul" e "Abraço" (part. Martin) aparecem como as baladas do álbum, mas sempre apertando a questão existencial dita anteriormente. Em "Abraço" é levantado o abraça recebido da pessoa amada mas que de tão apertado sufocava e não se sabia se ele queria partir a pessoa ou se ele era um abraço de despedida, mas a origem desse refrão se deu em um show da banda que um fã apertou muito forte a mão de um dos gêmeos e ficou aquela dúvida no ar.

Foto: Felipe Vieira

Em uma crítica direta a polícia pacificadora do Rio de Janeiro, "A Paz" retrata a realidade do Brasil, onde quem devia servir o povo serve ao Estado e para os que possuem bens de grandes valores. Em seu meio foram inseridos alguns trechos de entrevistas de pessoas que foram vítimas da repressão policial de forma a enriquecer a denúncia apresentada. 

E assim se chega a segunda parte do disco. "Z" é o segundo interlúdio que vem para dividir o álbum em dois. Edgar explica nele o que é um átomo e após a sua explicação entendemos que átomo é tudo aquele que nos cerca, incluindo nós mesmos, levando o álbum para um lado mais material e rotineiro. "Átomo" resume nela todo o conceito sentido ao longo das demais canções por envolver indagações quânticas e quanto ao que não vemos mas sentimos e/ou sabemos que existe. 

"Estamos Ao Vivo" é dona de um coral de vários "oh oh oh" e de outra crítica desta vez a grande mídia e seus casos que abriram portas para grandes reportagens como a situação dos refugiados, paraísos fiscais e o crime ambiental em Mariana (MG). "Separação" é que um hino da dualidade da separação de um casal heterossexual, há a visão do homem e a da mulher, cantada pela Helena D'Troia.

"O Segredo" é uma composição do Dudu Vale, um dos ex-membros da banda, e trata do que é viver e dos riscos que é estar vivo. Iniciada com uma viola, "Fim da Estrada" também foi composta por Dudu e é uma viagem audiovisual em um local bem bucólico num começo de dia.

Para fechar, temos "Prosseguir" com a volta de Teco Martins gritando ao som de uma faixa mais hardcore, perfeita para matar as saudades dos fãs do Rancore, antiga banda de Teco (atual Sala Espacial). A música termina e deixa um gosto de quero mais e nos permite pensar sobre o que será o futuro da banda.

Ouça também: YouTube | Deezer | iTunes | Napster

"Deus e o Átomo" é uma reafirmação da banda Medulla como músicos pois o principal objetivo era sair da fórmula *banda de rock guitarra+baixo*. O álbum soou muito mais do que isso, desmitificou o padrão esperado e, principalmente, deu a banda uma atmosfera de banda grande que lota estádios. Quando questionados sobre esses pontos, foi dito que esse foi justamente o objetivo do quarteto, embora muitos elementos só nasceram após horas no estúdio. Quem ganhou também (mais uma vez) foram os fãs muito féis da banda visto que todos são tocados diretamente pelas mensagens espalhadas pelo disco. Se em músicas como "Bom Te Ver" e "Eterno Retorno" a galera já transcendia nos shows, "Faça Você Mesmo" e "Travesseiro Azul" também são boas candidatas para dividir esse espaço.
Medulla apresenta pela primeira vez o show de "Deus e o Átomo" no próximo dia 29 em São Paulo na Festa Avalanche.

SERVIÇO:
Festa Avalanche com Ego Kill Talent, Far From Alaska, Medulla, Supercombo e Scalene
Data: 29 e 30 de outubro de 2016
Local: Clash Club | R. Barra Funda, 969 - Santa Cecilia, São Paulo/SP
Ingressos: clique AQUI para adquirir.

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